Sociedade Civil e o Interesse Bem Compreendido
Na última matéria do blog, defendi que chegou o momento de revitalizarmos a sociedade civil, enquanto espaço de solidariedade, cooperação e engajamento democrático, onde cada um de nós importa. Também dissemos que o caminho para isso é o fortalecimento do espírito comunitário e o direcionamento para a construção coletiva de uma sociedade mais forte, equilibrada e justa. Mas, como fazer isso?
Somos seres individuais com interesses próprios, porém, também, fazemos parte de comunidades maiores que nos conectam. Essa tensão entre o individual e o coletivo tem sido tema de diversas tradições religiosas e intelectuais que buscam formas de mediar essa relação e equilibrar liberdade e igualdade. A política, as ciências sociais, a psicologia e a psicanálise sejam por excelência as tradições intelectuais que mais concentram esforços no sentido de nos auxiliar a lidar com nossos desejos pessoais vis-à-vis os interesses e os limites definidos pela sociedade.
Sigmund Freud nos ensinou que somos “seres desejantes e faltantes”. A minha impressão é que o desejo chega antes, como essência da vida, e a falta, a posteriori, no confronto com realidade. Mas independentemente dessa sensação pessoal estar correta, acho que há elementos para dizer que dessa condição humana, decorre a questão do que como lidamos com o nosso interesse pessoal e com as possibilidades, lutas e conflitos que ele nos coloca. Como encontrar um equilíbrio entre o que queremos individualmente e o que é melhor para o coletivo ou com o que já está posto, enquanto valor social?
Um exemplo atual e concreto disso é o debate sobre a diminuição da jornada de trabalho no Brasil. Essa questão traz à tona o conflito entre interesses individuais e coletivos de maneira clara e urgente. Para o trabalhador, a redução da jornada significa mais tempo livre, melhor qualidade de vida e bem-estar. Para o empregador, no entanto, isso pode representar um aumento nos custos e a dúvida sobre perdas de competitividade. Em termos políticos, a esquerda, que valoriza a igualdade e os direitos sociais, tende a apoiar essa redução, enquanto a direita, preocupada com o crescimento econômico e a eficiência, geralmente se opõe.
O Desafio do "Interesse Bem Compreendido"
Aqui entra a importância de entendermos o conceito de interesse bem compreendido, proposto por Alexis de Tocqueville. No século XIX, Tocqueville observou que, nos Estados Unidos, os cidadãos eram capazes de transformar seus desejos particulares em um "interesse bem compreendido", onde o bem coletivo era priorizado para além dos interesses individuais imediatos. Para ele, essa era a chave para as características de uma sociedade que lhe parecia ser movida pela cooperação. O compromisso com o bem comum era valor internalizado pelas pessoas, não apenas ideia abstrata.
Aplicando essa visão ao caso da redução da jornada de trabalho, podemos nos perguntar: Como seria possível transformar esse debate polarizado em uma busca por um bem comum que beneficie a sociedade como um todo? Na economia tem um ditado importante: “não existe almoço gratuito”. Na linha do interesse bem compreendido, é claro que certos grupos sairão perdendo em termos econômicos; natural que haja resistência por parte deles. Mais do que postura rígida e competitiva, todos nós devemos nos colocar enquanto trabalhadores e empresas e, ao ver todos os lados, avançar em nosso ponto de vista sobre a questão e participar dos debates de forma a auxiliar nas escolhas. Aqui, o espírito comunitário pode desempenhar um papel crucial. Se empregadores e trabalhadores, junto com a sociedade civil, pudessem se unir para discutir alternativas criativas, talvez fosse possível encontrar soluções que não apenas promovam o bem-estar individual, mas também fortaleçam a economia como um todo. Esse é o princípio do interesse bem compreendido em ação: renunciar a ganhos imediatos em nome de um benefício maior e duradouro para a comunidade.
Lições de Tocqueville e o Potencial da Sociedade Civil
Tocqueville nos mostrou que, para que uma sociedade civil seja forte, é necessário que seus cidadãos vejam a si mesmos não apenas como indivíduos isolados, mas como membros de uma comunidade que compartilha um destino comum. Nos Estados Unidos do século XIX, esse espírito comunitário parecia ser sustentado por quatro pilares fundamentais: soberania popular, igualdade, associativismo e liberdade de imprensa.
O desafio que enfrentamos hoje é como revitalizar esses valores em um mundo que está cada vez mais polarizado e fragmentado. As redes sociais e os interesses econômicos ainda tendem a dividir, ao invés de unir. Penso que um enfrentamento somente será possível se tocarmos a consciência de que existimos em sociedade e que podemos utilizar a nossa força coletiva para mudar esse cenário, enxergando os benefícios do princípio do " interesse bem compreendido".
O Caminho para a Ação
O desafio que temos pela frente é complexo, mas não impossível. Para acordar o espírito comunitário que Tocqueville tanto admirava, talvez um caminho possível seja:
Engajamento cívico verdadeiro, por meio de associações e movimentos que promovam o bem comum.
Educação e conscientização, que permitam à população compreender melhor os desafios sociais e políticos.
Diálogo e cooperação, para superar a polarização e construir pontes entre diferentes grupos e interesses.
Ao revisitar o conceito de Tocqueville sobre “interesse bem compreendido”, surge no horizonte uma perspectiva potente: se agirmos juntos, de maneira informada e cooperativa, talvez possamos transformar esse mundo em crise. E uma frase dele, em sua obra clássica, Democracia na América, Vol. 1, é mais atual do que nunca: Se nos salvarmos, salvaremos, ao mesmo tempo, todos os povos que nos rodeiam.”
E você, como se vê enquanto membro da sociedade civil? Como podemos juntos fortalecer nosso espírito comunitário e promover o bem comum?
Deixe suas reflexões nos comentários e participe desse movimento para revitalizar nossa sociedade!