Ecos do Passado e Ameaças ao Futuro: Reflexões Sobre a Posse de Trump
A posse de Donald Trump como Presidente dos Estados Unidos me pegou testando positivo para Covid. Sintomas negativos foram todos colocados juntos, à conta da pandemia que ficou para trás. Hoje, já bem recuperada, decido pensar em como me encontro olhando para o futuro, com a posse dessa pessoa inominável na maior democracia ocidental e primeira potência mundial.
Como qualquer pessoa que pretenda compreender minimamente o que está acontecendo, decido que o melhor caminho é fazer perguntas, rejeitar respostas fáceis do mercado das redes sociais e buscar auxílio em pensadores mais arrojados, para ter olhos mais abertos.
Começo com três perguntas: Como compreender a atual eleição de Donald Trump nos Estados Unidos? Quais são os riscos para os Estados Unidos e para o mundo? Como nos defender dos efeitos desse governo? Em rápida pesquisa pela imprensa nacional e internacional; faço um resumo das respostas que encontro.
Como compreender a atual eleição de Donald Trump nos Estados Unidos?
a) descontentamento do eleitorado com a situação econômica e social do país, que pede pela revitalização da economia e pela restauração de empregos; b) rejeição às políticas progressistas, especialmente em relação à igualdade e a direitos humanos; c) polarização política e cultural, com grande parte dos eleitores se sentindo excluída dos frutos do desenvolvimento; d) campanha eficaz, com narrativas que conversam com insatisfações do eleitorado; e) intenso uso de redes sociais; e, f) ineficácia da campanha democrata.
2. Quais são os riscos para os Estados Unidos e para o mundo?
a) ameaça aos Estados nacionais, inclusive EUA; b) risco de instabilidade econômica, com desregulamentação e decisões conflituosas junto ao mercado; c) políticas protecionistas e unilateralismo; d) enfraquecimento da cooperação internacional para áreas críticas para o bem-estar global (clima, saúde e direitos humanos, por exemplo); e) erosão de alianças internacionais e diminuição do compromisso com o multilateralismo.
3. Como nos defender dos efeitos desse governo?
a) Vigilância e ação por parte da comunidade internacional para mitigar possíveis impactos negativos: a) envolvimento de Estados soberanos, em especial China, Alemanha, França, Reino Unido, Canadá e Brasil; b) Ação dos blocos econômicos (UE, G7, G20, BRICS, Mercosul etc.); c) ação das organizações internacionais e instituições multilaterais (ONU, OMC, OCDE, OTAN, FMI e OMS); d) ação de atores não estatais, tais como Greenpeace, Anistia Internacional, Human Rights Watch; e f) reação do setor privado, especialmente de grandes multinacionais e bancos, inclusive o Banco Mundial.
Incrível como não há uma narrativa positiva, tal como um líder carismático, projeto de governo arrojado ou outras possibilidades. As razões para a eleição são negativas e para o futuro, muitas ameaças no ar. Considerei útil esse esquema multicausal e multifacetado em consequências para entender o que está em jogo nas relações institucionais internacionais. Penso que ele já me instrumentaliza para pensar as lutas que vão ser travadas com o Trump.
Mas acredito que seja muito insuficiente, se o que queremos é ter uma compreensão mais profunda de causas, consequências e maior clareza sobre como lutar por um futuro com uma humanidade mais crescida.
Eric Hobsbawm mostrou em sua última obra ‘Era dos Extremos – O breve século XX’ que, já no final do século XX, havíamos entrado em séria crise histórica. E sinaliza que ela nos impõe o preço de agirmos por uma mudança social, se queremos que a história humana tenha continuidade: “As forças geradas pela economia tecnocientífica são agora suficientemente grandes para destruir o meio ambiente, ou seja, as fundações materiais da vida humana. As próprias estruturas das fundações sociais da economia capitalista estão na iminência de serem destruídas pela erosão do que herdamos do passado humano. Nosso mundo corre o risco de explosão e de implosão. Tem de mudar.”
Além de indicar que a única opção é a mudança, o autor alerta também que esse caminho não será fácil no século XXI, porque o jogo político não está preparado para enfrentar os verdadeiros desafios da humanidade. As autoridades temem colocar em risco suas eleições com soluções que impopulares, ainda que em contexto em que são absolutamente indicadas. Por isso, essas autoridades preferem evitar a relação mais franca com a população, escondendo a verdade por trás de “nuvens de tinta para confundir seus eleitorados”.
É de amplo conhecimento que o poder político reside na manutenção da autoridade de quem governa. Assim, todo exercício de autoridade busca reconhecimento de legitimidade, apoio popular, obediência dos cidadãos e voto dos eleitores. Por isso, as autoridades levam em conta o desejo da maioria da população, ainda que o propósito não seja realizá-los. Já as medidas impopulares precisam vir disfarçadas, pelo impacto no voto.
Neste cenário, é fácil perceber que o eleitor comum não tem sido colocado frente a frente com informações concretas sobre os desafios atuais em quase todas as sociedades. Com isso, abre-se a guerra de narrativas entre os vários grupos do campo da política. Como ninguém fala realmente sobre o real, toda narrativa vale. Ao invés de fornecerem informação de qualidade às pessoas comuns, para poderem agir com responsabilidade compartilhada para solução dos problemas, as autoridades têm preferido contornar processos eleitorais, gerir problemas e adiar soluções.
A instabilidade que esse movimento gera na percepção de legitimidade do setor público abriu espaço para os piores oportunistas da política ou para pessoas de fora da política - caso do Milei na Argentina, Trump nos EUA - que enxergam na insatisfação popular ambiente propício para o discurso manipulador, a fim de ganhar eleições e as posições de poder que vão garantir para seus pares vantagens de recursos públicos. A posse do Trump, rodeado por super ricos estadunidenses que estão ao seu lado em Washington, indica que há risco de utilização da máquina de Estado em benefício de magnatas da tecnologia.
Penso que a eleição do Trump carrega o paradoxo do enredo da manipulação perversa. Ao invés de as pessoas comuns serem beneficiadas pela eleição do seu candidato, como acreditaram, eles e seus descendentes serão os maiores perdedores no futuro, dado que há muitos riscos de serem ainda mais excluídos das políticas públicas. Vem à minha lembrança o alerta de Yuval Noah Harari, em seu livro "21 Lições para o Século XXI”, sobre um perigo profundo de partição do mundo. Ao olhar para a lição de igualdade, ele indica um risco muito alto, a continuar a tendência histórica, de a caminhada do século XXI resultar em uma minoria absoluta pequena de pessoas no mundo com acesso aos frutos do conhecimento e da tecnologia e uma maioria de bilhões de pessoas que ficarão às margens, porque serão supérfluas ao processo de produção e de consumo.
Ao pensar esse cenário, me ocorre que os super-ricos e as empresas de tecnologia à frente do Governo Trump podem tentar fincar as bases para a constituição dessa pequena elite prevista por Harari. Isso resultaria em uma agudização da exclusão do restante da população mundial, ampliando a desigualdade e, no limite, risco de bilhões de pessoas serem tratadas como "sub-raça", sem valor econômico ou social. Harari afirma ser essa escolha um desafio ético e social imenso para a atual geração. Pensando nesse sentido, a eleição do Trumpo também um estelionato eleitoral porque os mais prejudicados serão exatamente as pessoas comuns, as que foram manipuladas pela extrema direita.
Interessante pensar como o discurso da extrema direita internacional tenta nos manipular. Penso que ela nos pega em nossa ilusão burguesa de aumento da renda individual, em nossa fé religiosa e na moral que utilizamos para organizar a nossa vida pessoal. A despeito de quase nunca acontecer com os mais pobres, o desejo de alcançar a vida dos ricos está muito presente no imaginário coletivo. Em eleições, essa possibilidade entra como promessa mágica de que poderemos conseguir mais emprego, mais renda, ou seja, poderemos ser incluídos se formos pessoas de bem.
Já o tema Deus é um problema enorme na política. A extrema direita avoca a legitimidade de representantes políticos da divindade. Ainda bem que a bispa de Washington recolocou os pingos nos is, olhando nos olhos do Trump. ainda que a equipe do governo a tenha acusado de esquerdista radical. Por último, como precisamos nos considerar boas pessoas, existe uma tendência normal sermos um tanto quanto tirânicos em termos morais. Se não controlamos essa autoestima moral, corremos o risco de apoiar a terrível mensagem da extrema-direita de que todas as minorias estão moralmente estão erradas.
Prato-cheio para a manipulação. Hordas de pessoas manipuladas ancoram esse processo de tentativa da extrema direita de tomada de poder dos estados nacionais. O risco, se não conseguirmos conter essa loucura, é de implosão da organização das sociedades humanas tal como as conhecemos. Obviamente, os eleitores da extrema direita e seus descendentes jamais serão puxados para a minoria dos privilegiados que estarão na posição de super-humanos, com os frutos do conhecimento humano e da tecnologia.
É preciso abrir os olhos coletivamente! Não podemos nos dar ao luxo de confiar apenas nas respostas institucionais de curto prazo. Precisamos enxergar com profundidade o que está em jogo, unir esforços e agir de forma coordenada para transformar as estruturas sociais antes que seja tarde demais.