Crise democrática: será que estamos jogando contra nós mesmos?
Dilema desafiador
Outro dia, recebi um feedback inesperado. Duas amigas leram meu artigo sobre o filme Ainda Estou Aqui e seu efeito sobre a consciência democrática no Brasil. Para minha surpresa, elas entenderam que eu apoiava o Partido dos Trabalhadores (PT) e que, portanto, “estava do outro lado”. Se até pessoas próximas interpretaram um alerta democrático como um alinhamento partidário, tem algo errado.
E esse problema não é só meu. Ele reflete um dilema mais profundo: como criticar governos e expressar insatisfação legítima sem, inadvertidamente, colocar em risco as bases da democracia? Vale a pena refletir sobre isso.
Democracia em risco, apesar de mais eleições
Meu tema central é a defesa da democracia e o fortalecimento da sociedade civil. Considero que este é um dos maiores desafios do mundo. Em 2024 houve um recorde de eleições, mas, paradoxalmente, o Índice Global de Democracia (Relatório The Economist Democracy Index 2024 – EDI2024) caiu para 5,17, o menor nível desde sua criação, em 2006.
O paradoxo é inquietante. Por insatisfações legítimas, cada vez mais pessoas apoiam candidatos que não têm compromisso com o projeto democrático e, sem perceber, contribuem para o enfraquecimento de instituições e até para viabilização de golpes autoritários. Esse talvez seja o caso das minhas amigas. Por críticas profundas, por mais justas que sejam, alimentam a possibilidade de relevar o risco de ditadura militar e de apoiar anistia aos que conspiraram contra a democracia brasileira em 2023. E pior, veem posições opostas às suas como alinhamento ao PT. Vamos aos dados.
Segundo o Relatório, o Brasil faz parte do grupo das democracias imperfeitas, assim como outros 46 países. Há eleições, mas as instituições não funcionam plenamente dentro das regras democráticas. O acesso à justiça e aos serviços públicos é precário, e crimes contra o bem comum são frequentes. É fácil entender por que tantas pessoas estão desiludidas, inclusive minhas amigas. Antigamente, as pessoas sequer sabiam que tinham direitos. Hoje nós sabemos, e o resultado é que não estamos satisfeitos. E não estamos sozinhos.
O DI2024 aponta que 65% da população mundial está insatisfeita com as democracias representativas. Esse descontentamento é impulsionado por três fatores principais: a) falta de confiança nos governos para garantir bem-estar econômico; b) ausência deliberada de clareza sobre problemas reais e as soluções possíveis, por parte dos políticos, alimenta o desengajamento cívico; c) desigualdade e corrupção em alta corroem a confiança nas instituições democráticas.
O que acontece quando a frustração chega a um ponto crítico? Muitos optam por “jogar fora o bebê com a água do banho”, como alerta o Relatório. Ou seja, descartam todo o sistema democrático em busca de soluções rápidas e entregam o poder a líderes que podem destruir as próprias garantias democráticas.
Democracia dá trabalho, mas vale a pena
A questão central não é negar os problemas da política ou da gestão pública. Mas há caminhos que fortalecem a democracia e outros que a destroem. Precisamos inovar e renovar a discussão sobre democracia no Brasil e no mundo. Questões reais que minam a confiança das pessoas nos governos devem ser debatidas abertamente. Insatisfações legítimas com políticas públicas e privilégios políticos devem ser denunciadas e resolvidas institucionalmente. E, acima de tudo, a manipulação política precisa ser combatida por todos – da imprensa ao cidadão comum.
Democracia dá trabalho, mas direitos já conquistados valem a luta. E as amizades também!